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terça-feira, 16 de março de 2010

A "Excursão da Morte" realizada pelo Santa Cruz em 1943


Você já ouviu falar da “Excursão da Morte” realizada pelo Santa Cruz em 1943? Essa incrível aventura da equipe Coral teve um saldo de dois jogadores mortos, dois desertores, um jogador obrigado a casar por ordem judicial, ameaça de ataque de submarinos alemães, dois descarrilamentos de trem, só pra citar os problemas mais graves. Essa inacreditável excursão durou 120 dias – 02 de janeiro a 02 de Maio – e 28 partidas realizadas. Mesmo com todos esses problemas, o Santa venceu quase todas as partidas. Lei abaixo a matéria da Revista Placar publicada no site Museu dos Esportes:



"Esta é a equipe do Santa Cruz que não tem identificação. Os marcados com um X morreram durante a excursão.

Para fugir dos submarinos alemães os navios viajavam à noite, com as luzes apagadas. Os jogadores dormiam no convés. Assim começou a incrível excursão do Santa Cruz ao Norte. Uma viagem que teve de tudo, até mortes.

No dia 2 de janeiro de 1943, a Segunda Guerra Mundial estava em seus momentos mais negros, banhando a Europa de sangue. O Brasil já havia declarado guerra contra as forças do Eixo, e os submarinos alemães circulavam pela costa brasileira. E foi nesse mês de janeiro que a delegação do Santa Cruz embarcou no vapor Pará, do Lóide Brasileiro, que saiu do porto de Recife com destino a Natal, a primeira parada de uma temporada que, mais tarde, seria chamada de
“excursão da morte”.
O navio viajava em comboio e escoltado por dois navios da Marinha de Guerra. Horas depois de chegar a Natal, o Santa Cruz já estava no estádio Juvenal Lamartine para enfrentar a seleção potiguar. O Santa Cruz goleou por 6x0. Somente no dia 10 é que o clube pernambucano chegou a Belém para iniciar sua temporada. E foi logo goleando o Transviário por 7x2. Depois venceu a Tuna Lusa por 4x2, empatou com a seleção paraense em 2x2 e com o Paysandu em 4x4. Na despedida, perdeu para o Remo por 5x3.

A delegação do Santa Cruz deixou Belém e foi para Manaus. Uma viagem feita em vapor gaiola que sobe o Rio Amazonas rebocando uma alvarenga carregada de alimentos para o Acre. A dez milhas por dia, a gaiola acabou levando duas semanas para chegar em Manaus. Com uma viagem longa, cansativa e tensos com a guerra, alguns jogadores passaram mal. Na estréia, perderam para o Olímpico por 3x2. Em seguida golearam o Nacional por 6x1. Depois deste jogo uma forte disenteria atacou o chefe da delegação, Aristofánes da Trindade, e os atletas Pinhegas, França, King, Guaberinha, Edésio e Papeira. Os atletas foram medicados e liberados, mas com recomendações alimentares. Na despedida de Manaus, o Santa Cruz venceu o Rio Negro por 3x1.

Outra viagem de vapor, agora descendo o Rio Amazonas. Pelado e Omar ficaram em Manaus atraídos pela boa oferta que fizeram os clubes locais. O plano da delegação era chegar em Belém, pegar o vapor Ita e voltar para Recife. Mas, no caminho começaram as complicações. Numa madrugada, os jogadores King e Papeira tiveram uma violenta recaída da tal desinteria. O médico a bordo afirmou que os atletas estavam com febre tifo, uma terrível doença na época. Eles seriam internados no Hospital Dom Luiz I em Belém. Chegaram no dia 28 de fevereiro e foram reservadas passagens para a delegação Coral no primeiro vapor que tivesse o destino de Recife. Para azar dos pernambucanos, no dia primeiro de março, o Governo decretou a paralisação do tráfego marítimo.

Com essa decisão, o Santa Cruz foi obrigado a arranjar novos jogos para pagar as despesas com alimentação e hospital. Hospedagem não era o problema, já que a delegação estava alojada na garagem náutica do Clube do Remo. E no dia 2 de março, o Santa Cruz enfrentou o Remo. Antes do jogo, os pernambucanos receberam o chefe de polícia de Belém, que chegou para prender o jogador Pedrinho. Um telegrama dizia que o atleta tinha feito “mal” a uma menor de 17 anos, e teria que aguardar preso, a chegada de um agente do Amazonas que o levaria para Manaus afim de casar.
Aristofánes Trindade fez Pedrinho assinar uma carta para seu ex-companheiro, Pelado, que ficara em Manaus, se apresentar no cartório e casar por procuração. No jogo, o Santa Cruz venceu o Remo por 4x2. Dois dias depois, a fatídica excursão teve seu primeiro mártir: na madrugado do dia 4, a febre tifo matou o jogador King. Seu corpo ficou na sede da Federação Paraense de Desportos e foi enterrado no cemitério de Belém. Mais três dias e novo jogo foi realizado. Era um domingo de carnaval e o Santa Cruz jogou de luto. Depois do jogo, receberam outra noticia trágica: a febre tifo também matou Papeira. Todo mundo chorou.

Os componentes da delegação já estavam desesperados. Os dirigentes tentaram retornar ao Recife por via aérea, mas além das deficiências da aviação comercial, também não havia dinheiro para comprar as passagens. Quando o tráfego marítimo foi reaberto, o Santa Cruz conseguiu vaga num rebocador que os levaria a Recife. Quando todos estavam alojados, veio a ordem que eles não podiam viajar porque o navio recebeu uma carga inflamável.
O chefe da delegação, Aristofanes Trindade, já não sabia o que fazer. Finalmente, no dia 28 de março, os pernambucanos retornaram a Recife mas, com uma parada de quatro dias em São Luiz. Para juntar algum dinheiro, os jogadores trocaram as passagens de primeira por outras de terceira classe e foram obrigados a viajar na companhia de uma corja de 35 ladrões que a polícia do Pará estava exportando para o Maranhão. Por garantia, as 15 taças conquistadas ao longo da temporada, foram guardadas cuidadosamente. Medida desnecessária, pois jogadores e ladrões se tornaram amigos.

Em São Luiz, novo contratempo. O navio ficou retido e só poderia seguir em comboio. Novos jogos são acertados e a renda distribuída entre os jogadores. Num desses jogos, contra o Moto Clube, o Santa Cruz estava com King e Papeira (falecidos), Edezio e Capuco (machucados). Só tinha dez jogadores. O cozinheiro do navio entra em campo e completa o time. Antes do segundo jogo programado, todos voltaram ao navio que saiu com destino a Fortaleza. Logo depois caiu um forte temporal e se ouvia apenas os silvos dos outros navios do comboio. Como o radar acusava submarinos alemães na área, o comandante do navio revolveu voltar a São Luiz.
Diante da perspectiva de nova demora, os jogadores decidiram retornar por terra. O trem, de São Luiz a Teresina, descarrilou duas vezes. O Santa Cruz ainda teve jogos no Piauí antes da viagem de ônibus para Fortaleza onde completou o total de 28 partidas na excursão. Era quase meia noite do dia 2 de maio quando a delegação do Santa Cruz chegou a Recife. Os jogadores estavam exaustos, nervosos e abatidos. E chegou com menos dois. King e Papeira estavam mortos. Uma temporada que começou no dia 2 de janeiro e terminou no dia 2 de maio".



Fontes: Revista Placar - Museu dos Esportes

Final do Campeonato Pernambucano - 1995








Fonte dos vídeos: Blog É Gol do Santa